O novo mapa da indústria no início do século XXI: Diferentes paradigmas para leitura das dinâmicas territoriais do Estado de São Paulo

Eliseu Savério Sposito (Organizador)

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Esta obra reúne dezoito ensaios que compõem uma diversificada radiografia do principal parque industrial brasileiro. Os autores apresentam análises contemporâneas das características e tendências da reestruturação produtiva verificada no interior paulista neste início de século. O livro é dividido em duas partes.
A primeira enfatiza as formas, tratando de temas como as inovações tecnológicas no estado, os condomínios empresariais, os arranjos produtivos, a hierarquia urbana, entre outros. Já a segunda parte aborda os fluxos e discute questões como a rede urbana e os eixos de desenvolvimento, a dinâmica da reestruturação produtiva, a circulação e a logística.
Os textos coligidos mobilizam os conceitos da geografia econômica para delinear um panorama analítico das infraestruturas e especializações industriais do estado de São Paulo. Com dados atualizados, os ensaios aqui coligidos oferecem um retrato contemporâneo das transformações do território paulista.

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IMPARCIALIDADE, DEMAGOGIA E PICARETAGEM

Wander Luis de Melo Cruz
Doutorando em Geografia na UFSC

Saudades de quando os atuais cientistas políticos da internet estavam preocupados em postar fotos diárias de suas atividades físicas e de seus corpos sarados, bem como de suas aventuras pela Europa, pelos EUA, de quando ficavam curtindo posts da maçonaria e de clubes de charutos, ou quando estavam preocupados com o status quo das baladas requintadas que frequentariam todos os finais de semana com seus amigos vigorosos e sorridentes.

Saudades de quando o Facebook não parecia manchete do Jornal Nacional, abarrotado de analfabetos políticos.

Saudades de pensar que muitas vezes me indaguei sobre como esses indivíduos que são tão “imparciais” só se mobilizam apenas contra um determinado partido? Por que se revoltam apenas contra sempre o tal político?

Com o tempo passei a preferir o silêncio dos ignorantes, porém humildes, que não se arriscam a proliferar tolices, em detrimento aos falsos profetas da internet, que escancaradamente defendem partidos X ou Y, mas que por alguma razão astuta pensam que todos os seus leitores são tolos, e espalham comentários demagogos achando que seus discursos carregados de julgamentos de ordem moral individual são desprovidos de qualquer tipo de partidarismo. A esses eu digo: aqui não!

Particularmente, durante as eleições de 2014 fiquei um tanto desgastado com a política brasileira, pois perdi amizades, entrei em debates ferozes com pessoas próximas e mesmo com desconhecidos, e deveras, nos últimos dois anos, me silenciei basicamente quando o assunto era política. O motivo desse silêncio foi um pouco pelo fato da amargura que carreguei devido ao fato do governo que ajudei a eleger e defendi, ter realizado tantas coisas que são literalmente o oposto do que aprendi e acredito ser o caminho para o desenvolvimento nacional.

Minha revolta com o atual governo foi grande nos últimos dois anos, confesso que muitas vezes fiz críticas a ele e escutei calado outras (coerentes ou não). Então comecei, aos poucos a juntar às peças novamente, tentei enxergar as coisas por outro ponto de vista, tentei buscar outras linhas de pensamento para ver se encontrava outras respostas, e sim, descobri que nossa formação política só é, de fato boa, se conseguirmos comparar às fraquezas e os benefícios das diversas correntes do pensamento político-econômico.

Horas, então és neutra sua análise? – Poderia me perguntar o leitor – é claro que não, responderia sem ressalvas. Aliás, concordo com a célebre frase do sociólogo alemão Max Webber, de que “ neutro é quem já se decidiu pelo mais forte”.

Mas é hora de romper com o silêncio, levantar a cabeça e por ela para pensar. Para as pessoas mais “letradas”, com uma sólida formação em política e história do Brasil, pode parecer bem fácil enxergar que o que temos hoje é um grande golpe político partidário, no qual a mídia e o judiciário são os executores do espetáculo. Isso é fácil de perceber, independentemente de o indivíduo ser pró-governo ou contra o governo.

Os que são contra o governo, sejam eles liberais ortodoxos (politicamente e economicamente), ou mesmo os contraditórios “meio-liberais” (liberais no campo político ou econômico, mas nunca nos dois) a estes não travo mais nenhum debate, desde que haja lucidez em seus argumentos, assim como também não me simpatizo e nem gosto de perder meu tempo com esquerdistas pós-modernos, com socialistas franciscanos, e daqueles amigos impregnados pelo sentimento solidário judaico-cristão que permeia o coraçãozinho de muitos jovens de esquerda.

A questão é que grande parcela da sociedade não tem essa noção política, e suas opiniões políticas são formadas diariamente por doses cavalares de jornalismo da TV aberta. Hora, o que tenho visto é um monte de gente esbravejando ódio contra um partido, contra duas pessoas que é desnecessário citarmos os nomes. Ok. Digamos que essas pessoas sejam abduzidas para outra dimensão, então acaba a corrupção? Se o Partido X acabar? Eles inventaram a corrupção? A corrupção no setor público é o problema do Brasil ou é produto da organização de nossa constituição?

Então comecei a pensar: como determinadas revistas e jornais conseguem ter acesso à gravações e informações sigilosas do governo? Depois me indaguei: porque o juiz que julga a Lava Jato tem parentes ligados e um histórico com um partido de oposição? (Chegando a participar de reuniões com o empresário João Dória); por que só para políticos de um partido X a deleção premiada já era motivo para prisão preventiva? – Vejam o absurdo meus caros: primeiro a delação, segundo a prisão e em terceiro a busca da confirmação dos fatos! Hora, um político que ultimamente não era bem-vindo nem mesmo no estado onde governou, teve seu nome citado em 4 (QUATRO) delações, e até agora ainda se passa por bom moço pela televisão e chama as ovelhas para suas manifestações com a camisa da honesta instituição que é a CBF.

Por fim, também não é difícil perceber que os Marinho e os Civita têm seu lado político e seus preferidos: em 1989 elegeram Collor; em 1995 FHC; e em 2002, com muita resistência aceitaram Lula. Não estou pedindo para que o leitor partidarista, para os saudosos da ditadura militar ou para os radicais religiosos mudarem de lado, muito pelo contrário, não é com palavras rasas que colocaremos mentes duras para se indagar. Minha preocupação é com os jovens, com as novas gerações que poderão no futuro não gozar do mesmo direito que eu e você temos de estar insatisfeitos com o governo, da legitimação da ressureição da censura e da imposição do pensamento único.

Me dói ver um país como o nosso mergulhado em uma crise (política, econômica e institucional), no qual o poder Legislativo boicota o Executivo, em que o poder Judiciário faz um jogo partidarista e midiático, e que diversos setores produtivos e pessoas estão atualmente com capacidade ociosa por causa disso. Um país onde os políticos não se dão o respeito, onde os meios de comunicação elegem seus messias e seus judas, e que parcela considerada da população absorve e reproduz, e agindo como papagaios, crucificam e sacralizam erroneamente determinados figurões que futuramente irão para os livros de história com adjetivos de diversas acepções.

Essa proliferação de discursos travestidos de interesses, carregados de moralismo baixo e repletos de indignação seletiva não são nenhum pouco próximos de suas aparências, aliás, em sua essência, vão contra até mesmo contra as demandas dos indivíduos que as reivindicam. Isso sim é perigoso, a indução das massas com fatos distorcidos em favor dos oradores.

Assim como você, quero mudanças para o meu país, mas quero mudanças para frente, onde as desigualdades sociais diminuam, que nossa educação aumente, que nossa saúde melhore, que nossas empresas produzam e vendam mais, que nosso comércio venda mais… que eu e você, independente de nossa posição social, cor, gênero ou idade possamos conviver em respeito, sem autoritarismo e buscando a evolução da humanidade.

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“Os operários” de Tarsila do Amaral, exposto na Semana da Arte Moderna em 1922 em São Paulo

A falta de nacionalismo e a iminência do golpe neoliberal no Brasil

Diante do agravamento da crise política brasileira, cresce a possibilidade do impeachment da presidenta Dilma Rousseff. A pressão especialmente do setor financeiro para a retomada plena da política neoliberal no país é apoiada pela imprensa golpista e antinacionalista (Globo, Bandeirantes, SBT, Grupo Abril etc.). O desejo de retirar o PT do governo é voraz e se expressa por um apoio popular cada vez maior, sobretudo da elite e classe média. E os jovens, como se inserem nesse processo? Parece que mesmo aqueles que cursam o ensino superior público estão cada vez mais contaminados pelo conservadorismo e pelo discurso ambiental midiático. Ideias que ratificam a desigualdade, ao invés de propor mudanças sociais e econômicas importantes no âmbito regional e nacional.
As ideias equivocadas do livre mercado e das “possibilidades infinitas” da iniciativa privada permeiam estudantes e profissionais especialmente de cursos e áreas técnicas, ou seja, acríticas e despolitizadas. Haja vista a quantidade expressiva de votos que receberam o Aécio Neves e a Marina Silva dos eleitores mais escolarizados nas eleições de 2014. Soma-se ainda, um certo desinteresse e despreocupação em relação ao conturbado contexto político e econômico do país.
No que tange aos grupos de menor renda e escolaridade, estes são facilmente manipulados pela mídia golpista brasileira, agravado pelo fato da recessão interna – com impactos negativos no emprego e na renda – reduzir ainda mais o apoio em relação ao governo Dilma. É comum na história o fortalecimento de setores e partidos de extrema direita e antinacionalistas, movimentos xenofóbicos, forte protecionismo econômico etc. em momentos de crise econômica endógena e exógena. Parece que se criou uma necessidade urgente de mudança, porém pautada no retrocesso das conquistas sociais e econômicas a partir do governo Lula.
Concessões e privatizações equivocadas e indiscriminadas, enfraquecimento do planejamento e dos investimentos, elevação do desemprego, queda da renda, aumento da desigualdade social e outros, são características da política neoliberal. Essa assolou a sociedade e a economia brasileira na década de 1990 (governos de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso) e pretende retornar talvez com mais força ainda, prejudicando sobremaneira a classe trabalhadora.
Destaco que um possível golpe e a inserção violenta da política neoliberal no país resultarão em reflexos negativos não somente no Brasil, mas em todo o Mercosul, pois nossa economia voltar-se-á fortemente para o centro capitalista, especialmente para os Estados Unidos e União Europeia, em detrimento dos fluxos Sul-Sul (periferia-periferia). O enfraquecimento do Mercosul prejudicará o efeito multiplicador em diversas economias, o comércio intrabloco e o fortalecimento geopolítico regional. Dessa maneira, uma reaproximação com os Estados Unidos permitirá aumentar a influência imperialista no Brasil e na América do Sul, fato que intensifica a oligopolização estrangeira na economia brasileira.
O discurso de combate à inflação estrangulando o emprego, a renda e o consumo – inerente ao discurso da economia ortodoxa/monetária – é reproduzido diariamente em diversos meios de comunicação do país. Todavia, desconsidera os ensinamentos rangelianos de combater a inflação gerando demanda efetiva na economia, mitigando a capacidade ociosa e enfraquecendo monopólios/oligopólios estrangeiros controladores de preços. O discurso neoliberal utiliza argumentos falhos, pois em momentos de crescimento da economia brasileira (juglarianos positivos) reduzia-se a inflação, contudo, em contextos recessivos ocorria uma elevação da mesma.
E a operação Lava Jato? Essa obviamente é uma das principais estratégias dos partidos e setores golpistas, sendo liderada pelo juiz Sérgio Moro. A justiça em geral e a operação Lava Jato de imparciais não tem nada, ou seja, representam interesses político-partidários (PSDB, DEM, PV etc.) e financeiros. Ademais, a tentativa desesperada de prisão do ex-presidente Lula pelo Ministério Público de São Paulo expressa essa massa de manobra para retirar o PT do governo e inviabilizar a possível candidatura de Lula nas eleições em 2018.
A Lava Jato na verdade faz mais mal do que bem ao país, visto que muitas obras de engenharia estão paralisadas devido às impossibilidades jurídicas, especialmente do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) no Nordeste. Milhares de trabalhadores ficaram desempregados com o interrompimento da duplicação da BR-101, da construção da ferrovia Norte-Sul e Transnordestina, entre outros. Não se pode misturar as prisões e condenações de pessoas com prejuízos ao emprego da classe trabalhadora, especialmente em uma região onde a construção civil exerce uma função vital na distribuição de renda.
Por fim, quero destacar que afirmava contundentemente que o Brasil possuía uma democracia neoliberal (representada principalmente pela Constituição Federal de 1988), entretanto, acho que estava enganado, pois, diante da iminência do golpe, na verdade nem temos uma democracia. Nesse momento conturbado da política e da economia nacional, penso na falta que fazem nacionalistas como Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Leonel Brizola e outros. O pior é que diversas vezes integrantes do PSDB e DEM afirmaram a existência de ditadura na China e que os irmãos Castro, em Cuba, e o Chavismo, na Venezuela, realizaram sucessivos golpes contra a democracia. Quanta hipocrisia e mentira!

Nelson Fernandes Felipe Junior
Universidade Federal de Sergipe – UFS

“MEA CULPA, MEA CULPA, MEA MAXIMA CULPA” E A ATUAL CRISE POLÍTICA NO BRASIL

Prof. Márcio Rogério Silveira, Dr.
Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC

Quem são os verdadeiros culpados pela crise política no Brasil? Aécio Neves, Fernando Henrique Cardoso, Ronaldo Caiado, Eduardo Cunha e outros “personagens” da política brasileira? Empresas da grande mídia, como a Rede Globo, a Bandeirantes, o SBT, o Grupo Abril (Revista Veja)? Sim, mas isso todos nós já sabemos, entretanto, muitos não sabem que eles são, em parte, meros fantoches, pois atendem tanto os seus interesses pessoais (econômicos e de poder) quanto também de instâncias mais profundas, atuantes em outras escalas de poder. É claro que estou falando do capital especulativo nacional e o internacional, com destaque para o financeiro. Também é contundente que vários setores que apoiaram o governo Lula da Silva desembarcaram do pacto político-econômico-social construído pelo Partido dos Trabalhadores (agregando capital e os trabalhadores), consubstanciado pela “Carta aos Brasileiros”. Carta essa negociada por José Dirceu, nas suas idas e vindas dos Estados Unidos. Fato que coloca José Dirceu no centro das atenções da oligarquia(1) nacional (feliz com seu príncipe sociólogo da teoria da dependência).
Nem Lula da Silva e nem o PT chegariam ao poder antes disso. Implicando, portanto, que se Lula tivesse ganho de Fernando Collor, em 1989, nunca teria governado. Pelo menos essa era a intenção da elite nacional e dos capitais internacionais. Foram necessários aproximadamente 12 anos para amansar a fera, para tirar o PT do status de partido socialista para o de socialdemocrata, isto é, o mesmo status do PSDB (apesar dele não corresponder mais a esses ideais). Vale lembrar que Nelson Mandela precisou de 28 anos de prisão para abdicar da luta armada, da radicalização dos movimentos sociais e da revolução, ou seja, tudo isso em prol de um reformismo Sul-Africano. Com o foco dos Estados Unidos no Oriente Médio, nos conflitos comerciais com a União Europeia, com a disputa pela hegemonia asiática com a China – numa série de governos democratas, com exceção de George Bush – houve espaço, no cenário internacional, para o surgimento de iniciativas nacionais de desenvolvimento na Índia, na África do Sul, na Rússia, no Paquistão, na Bolívia, no Brasil etc. Alguns muitos caros aos Estados Unidos, como nos países da América do Sul, resistindo ao avanço da ALCA, dando novo sentido ao MERCOSUL e a criando a UNASUL, em 2008.
Isso quer dizer que os Estados Unidos (numa grande disputa pela manutenção da hegemonia global) e as grandes corporações mundiais (petróleo, cigarros, armas e outros) são as responsáveis pelo fracasso do nosso plano de desenvolvimento nacional? Sim, mas também só em parte. Aliás, o plano de desenvolvimento nacional, encabeçado pelo PT, é relativamente falho, fadado ao fracasso e com tempo limitado, isto é, sua obsolescência já estava programada. Mas creio que seus formuladores sabiam disso. Portanto, não foram burros ou descuidados. Só se acomodaram e esqueceram de pular de fase, de etapa, de dar um upgrade no processo de desenvolvimento do Brasil. Até porque isso redundaria em abrir mão do poder para outro grupo, de entrar em outro pacto de poder, só que provisoriamente como subalterno. Mas que grupo de poder eu estou falando? De grupos partidarizados, como PSDB, DEM, REDE, PSOL, PV, PSTU? Não, longe disso. Falo de um grupo de centro-esquerda nacional-desenvolvimentista e, inclusive, com grupos nacionalistas de direita e, de certa forma, ligados, inclusive, as forças armadas. Até porque essa mudança seria importante para haver uma oxigenação do próprio PT e, quem sabe, sua futura volta ao poder. Mas o tempo passou, sem haver mudanças de rumo, na direção certa. A mudança de direção que tivemos foi a implementada pela Presidenta Dilma Rousseff, na tentativa de romper o pacto político-econômico-social construído em 2002. Baixar os juros da Selic, diminuir o spread, aumentar o crédito nos bancos públicos, entre outros.
Tudo isso esperando que o capital produtivo fizesse investimentos massivos e a economia brasileira voltasse a crescer. Puro engano, o capital produtivo não acompanhou as intenções de Dilma, como também não gostou das mudanças na economia e, em especial, na perda de ganhos que estavam acostumados a obter no mercado especulativo. Algo que soma a falta de uma política industrial. Os capitalistas detentores do setor produtivo não são obtém seus ganhos só através das atividades produtivas. Vide o caso da BRF Foods (sadia, Perdigão, Do Bom, Avipal, Paty, Borella etc.), JBS (Terminas Brascarne, Friboi, Seara, TRP Caminhões, Smithfield Beef, divisão de bovinos da Smithfield Foods etc.), B2W (Americanas, Submarino, Shoptime, Empório da Cerveja etc.), entre outras. Elas são controladas, em grande medida, por grupos especulativos que, de uma certa forma, ganham significativamente no mercado especulativo (fundiário, imobiliário, agrícola e financeiro). Ou seja, ao atacar os que vivem da especulação o governo não agradou parte do setor produtivo, pois esses capitalistas também vivem de especulações, do envolvimento político-partidário e de recursos estatais. Destaca-se o surgimento de personagens tipo Paulo Skaf, a posição conservadora da FIESP e as dúvidas sobre a seriedade e competência do Sistema S (SESC, SENAI, SENAR, SESI, SEBRAE, SENAT, SEST e SESCOOP). Mas, o grupo mais agressivo e que é acusado de ser um dos financiadores do golpe de Estado em curso é o capital financeiro nacional, liderado pela Febraban (apoiando, juntamente com ONGs internacionais suspeitas, a política Marina Silva, na tentativa de gerar um fenômeno eleitoral do tipo Collor de Mello). Por esses motivos é tão difícil uma reforma agrária, uma reforma urbana, uma reforma nos ganhos capitalistas, pois as atividades urbanas e rurais são alvos de intensas especulações.
Mas outra parte do problema que enfrentamos hoje está na estrutura conservadora da elite brasileira. Ela ainda é descendente dos senhores de escravos e se comporta como oligarca, ou seja, com resquícios escravistas e feudais (2) . Muitos imigrantes, empreendedores (capitalistas sem capitais), que ascenderam economicamente, ao longo da história, foram cooptados, seduzidos por essa estrutura oligarca. Vide o caso da família de imigrantes italianos Matarazzo, no estado de São Paulo, que alimentaram economicamente uma velha oligarquia decadente por décadas, até que ela própria se tornou conservadora. A velha expressão “vão os anéis, mas ficam os dedos” cabe muito bem para esse e para muitos outros casos. Se observarmos a característica da elite conservadora brasileira, que atua na grande mídia, para derrubar o atual governo, vamos perceber que ela vive de aparência e que possui, mais por herança do que por formação de recursos econômicos, algum poder político, ou seja, não é uma elite econômica forte e empreendedora. Entrementes, em parte, é alimentada pelos novos ricos que, por conseguinte, adoram incorporar algum conservadorismo de seus padrinhos políticos oligarcas.
Entretanto, o grosso dos ativistas que são contra o governo são pessoas da classe média e até mesmo de pobres. Temos até negros neonazistas e “gays” homofóbicos (cura gay etc.). Como explicar esse fenômeno, “essa aberração” sociológica? Por que os aposentados dos seguimentos baixos da sociedade brasileira são tão ferozes contra o governo? Esses são alimentados através do ódio, municiados pela grande mídia com argumentos simples, mas falhos, todavia, suficientes para serem reproduzidos no dia-a-dia. Nesses casos há, inclusive, um componente psicológico, de canalização de frustrações acumuladas durante toda uma vida e que, aos poucos, passa a fazer parte do imaginário coletivo. Já os jovens brasileiros – que acompanham as frustações da juventude mundial – padecem da falta de perspectivas, de bandeiras progressistas de luta(3) , voltando-se para o neonazismo, para o fascismo, para o conservadorismo religioso, mas também para as “microlutas” (que são muitas vezes apolíticas, que abandonam as demais escalas políticas e econômicas, a geopolítica, a geografia política etc. e, por isso, tornam-se conservadoras)(4) . Entretanto, nossas perspectivas de um futuro melhor são melhores que a de muitos países desenvolvidos.
Há as que envolvem relações políticas e econômicas com os patrões conservadores, ou seja, ser o empregado ideal, prestativo e ideologicamente subserviente e dominado. Para os gerentes e intelectuais vale a identidade de classe, mas para os assalariados oprimidos vale a esperança da sobra das migalhas, pois pouco entendem seu papel histórico na luta de classes. Isso quer dizer que a alienação da classe trabalhadora e a falta de consciência de seu papel histórico, muito maior hoje, é tanto fruto da desmobilização das classes sociais que foram cooptadas pelo pacto político-econômico iniciado em 2002 como do falho modelo de educação mantido pelo governo desde 2003(5) . Uma educação limitada, de baixa qualidade, pouco crítica, tecnicista e que abandonou a formação política (6) . Há também outros grupos que vivem das migalhas da elite conservadora, são partidários da direita e esperam ganhos financeiros por sua lealdade (cargos comissionados, contratos de consultorias, contratos de obras e serviços públicos etc.). Outros já ganham com isso é claro, pois são os que articulam e difundem os ideais de um golpe de Estado antidemocrático. Já que é difícil imaginar que muitos jornalistas, integrantes do ministério público, da polícia federal, entre outros criam todo esse espetáculo midiático e jurídico só porque querem salvar o Brasil da corrupção ou porque querem seus quinze minutos de fama. É trágico pensar assim, pois temos que entender que muitos desses personagens midiáticos respondem, já responderam ou são suspeitos dos mesmos crimes que dizem combater. A ironia está presente na hipocrisia.
Mas não sejamos ingênuos e defensores incondicionais do governo federal. O governo da presidenta Dilma, um pouco diferente do governo do presidente Lula da Silva, foi cruel com o funcionalismo público federal (salários e a reforma fatiada da previdência) e, em especial, com a educação superior. As negociações salariais foram truncadas e a educação foi a que mais foi prejudicada. Pois é uma área que, para as mentes pobres do governo, tinha pouco para barganhar no curto prazo, diferente da Polícia Federal, do judiciária e do legislativo. O que é a saída para o país, a médio e longo prazo, apesar dos avanços dos governos Lula e Dilma, é o que menos é valorizado, não só pelo governo, mas por considerável parcela da sociedade brasileira. Entretanto, hoje os funcionários públicos, com destaque para os educadores e pesquisadores, que já formaram um número significativo nas fileiras do PT, assistem de camarote a possibilidade de um golpe de Estado. Um golpe, uma apostasia, uma volta ao passado, com diversas características piores das que vivenciamos no período de Collor de Mello e de Fernando Henrique Cardoso. Uma apostasia para nossa própria desgraça. Estamos aqui, como diria Raul Seixas: (…) no trono de um apartamento, com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar” ou Zé Geraldo: “(…) isso tudo acontecendo e eu aqui na praça dando milho aos pombos”.
“Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa”(7) , nossa culpa, pois, até certa medida, fracassamos no rumo – para ser mais preciso, na correção de rumo – de um esforço nacional-desenvolvimentista. E agora? De curto prazo, cabe a defesa da falida, da hipócrita democracia. Cabe a defesa de um dos mais caros ideais da burguesia. Triste, mas dias piores virão.

  1. Quando trato da oligarquia quero me referir ao ranço conservador de uma elite tradicional, descendente do período escravocrata, baseada em princípios moralistas e ultrapassados, além de seus “servos” e seus adeptos intelectuais.
  2. Uma boa leitura sobre a história política e econômica do Brasil pode ser encontrada nos livros “Obras Reunidas” (vol. 1 e 2) de Ignácio Rangel. Muitos textos estão disponíveis na internet para download.
  3. Há muitas exceções, como a luta dos jovens pela educação (fechamento de escolas e desvio dos recursos da merenda escolar) no estado de São Paulo, o Movimento Passe Livre (MPL) etc.
  4. O aumento do conservadorismo (ou “falso conservadorismo”) evangélico e de grupos católicos (Renovação Carismática, Canção Nova e outros), as frustações sexuais, o racismo, a violência contra a mulher e outros são pontos que denotam um misto de frustrações de caráter psicológico. Soma-se também a esperteza de golpistas que se escondem atrás das igrejas para tirar proveito das mazelas do recente estilo de vida da sociedade. Ainda se destaca a jornada conservadora da atual igreja católica, especialmente, com a destruição da teologia da libertação e o distanciamento dos movimentos sociais.
  5. Entretanto, se compararmos com os governos de Fernando Henrique Cardoso iremos perceber um grande avanço, apesar de ser pouco se levarmos em conta o atraso histórico da educação no Brasil. No governo FHC houve uma apostasia, um retrocesso na educação brasileira. Nos governos do PT houve um grande avanço, mas ainda permanecendo um modelo de educação neoliberal, centrado no tecnicismo apolítico e numa baixa valorização das ciências humanas e sociais.
  6. Pretendo, na sequencia escrever outro artigo sobre o tema, mas algum tempo atrás já esbocei algo sobre a falha do governo no quesito educação: https://transportesedesenvolvimento.wordpress.com/2012/12/22/algumas-reflexoes-sobre-os-rumos-da-educacao-no-brasil/
  7. A origem da expressão vem da prece tradicional da missa da igreja católica conhecida como confiteor (“eu confesso” em latim), na qual o fiel reconhece e pede desculpa pelos seus erros.

Defesa de tese: Transporte público e mobilidade urbana: Contradições entre políticas públicas e demandas por mobilidade na Região Metropolitana de Florianópolis-SC

Os transportes públicos coletivos, a acessibilidade e a mobilidade na Região Metropolitana de Florianópolis (RMF) são afetados por vários atributos que remetem à formação socioespacial na região. Os elementos que dificultam a mobilidade metropolitana cotidiana abarcam desde fatores físicos, como o relevo e a hidrografia, até fatores socioeconômicos, incluindo a estruturação urbana da região. Em hipótese, o cerne destas contradições reside em uma superestrutura conservadora, que condiciona desde a produção de serviços de transportes, o planejamento urbano e de transportes, até a estruturação do espaço. A estrutura urbana da RMF evoluiu de um polo central de atração de viagens, na porção oeste da Ilha de Santa Catarina, para uma região metropolitana multipolar, cuja complexidade dos deslocamentos não foi acompanhada pelos serviços de transporte público e nem pela infraestrutura de transportes. Rodovias federais e estaduais, originalmente concebidas para atender aos fluxos regionais e conferir acesso às áreas de balneário, acumularam a função de vias urbanas locais, sem, no entanto, serem operadas e geridas enquanto tais. Estando ausente a prioridade viária para o ônibus – bem como outras tecnologias mais competitivas, capazes de atrair o usuário de automóvel – o resultado tem sido a pouca atratividade do serviço de transporte público, cujos tempos de deslocamento e as condições de conforto tem piorado de modo flagrante. Não obstante, os capitais de transporte combinam estratégias pré-capitalistas (relações clientelistas com o poder público) a estratégias de logística corporativa, garantindo a rentabilidade do sistema ainda que a eficácia ao usuário esteja prejudicada. Estas estratégias pacificam as contradições aparentes entre os capitais de transportes e os capitais imobiliários, ao tornar rentável a operação de transportes públicos mesmo em contextos de dispersão urbana e desordem do sistema viário, traço marcante do território da RMF. Gerenciar as políticas de mobilidade urbana em meio a esta complexidade em termos de base e superestrutura, exige capacidades de planejamento, financiamento e concertação política que não se evidenciam na estrutura institucional instalada na região, pouco dotada de recursos humanos e financeiros. Tais condições de financiamento, de planejamento, de governança, de produção dos transportes e demais condições de mobilidade, dificultam a realização dos saltos necessários à qualidade das interações espaciais, e assim, ao próprio desenvolvimento da região.

Rodrigo Giraldi Cocco

Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC
Programa de Pós Graduação em Geografia – PPGG – Doutorando/ Bolsista CAPES
Grupo de Estudos em Desenvolvimento Regional e Infraestruturas – GEDRI
Grupo de Estudos em Mobilidade, Transporte e Território – GEMOTT

Laboratório de Circulação, Transportes e Logística – LABCIT

 

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DICIONÁRIO DE GEOGRAFIA APLICADA: terminologia da análise, do planeamento e da gestão do território

No estabelecimento de regras, os dicionários são importantes. Quando o contexto é científico – como é o caso -, há diferenças ligeiras na apreciação de termos que são o reconhecimento da diversidade das perspetivas que permitem o debate. Por isso, eles são um meio de aprofundamento e progressão do conhecimento. Nesta obra, reúnem-se 167 investigadores de Portugal, Brasil, Espanha e vários países da América Latina que tratam 497 conceitos considerados essenciais à Geografia. Além de constituir um contributo à terminologia geral e específica adotada na atividade (prática, aplicada e profissional), este livro pretende apoiar a docência e o cidadão em geral, no seu processo educativo, a investigação e o trabalho de geógrafos e técnicos afins, inscritos em empresas de consultoria, administração pública e instituições diversas.

Image Dicionário

Livro: TEMAS DO DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO BRASILEIRO E SUAS ARTICULAÇÕES COM O MATO GROSSO DO SUL

LOGO NAS LIVRARIAS: Uma organização da Profa. Dra. Lisandra Lamoso. Nessa obra, intitulada TEMAS DO DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO BRASILEIRO E SUAS ARTICULAÇÕES COM O MATO GROSSO DO SUL, temos dois capítulos: um tratando da reestruturação do setor ferroviário brasileiro (Márcio Rogério Silveira e Alessandra dos Santos Julio) e outro sobre o comércio exterior brasileiro e o papel das infraestruturas de transportes (Márcio Rogério Silveira e Vitor Hélio Pereira de Souza).

 
Márcio Rogério Silveira
 
“Temas do desenvolvimento econômico brasileiro e suas articulações com o Mato Grosso do Sul reúne debates relevantes sobre agronegócio, infraestrutura, circulação, transportes e logística, integração regional, acumulação na agricultura, política industrial e questões políticas que fazem parte da pauta do desenvolvimento econômico brasileiro. Articula esse debate e discute suas implicações e desdobramentos no território sul-mato-grossense. Reflexões teóricas são complementadas por extenso conjunto de informações estatísticas, que contribuem para a discussão sobre projeto nacional brasileiro bem como sobre a inserção do Mato Grosso do Sul nos circuitos nacional e internacional. Subsídio para diversos campos do conhecimento, estes temas estão bem representados por seus autores, que atendem à Geografia, Relações Internacionais, História, Economia, Direito, Turismo, Ciências Sociais e áreas afins. São resultados de pesquisas financiadas por duas importantes agências de fomento, CNPq e Fundect, com a contribuição de bolsas de estudo via auxílio financeiro da CAPES”.
Lisandra Pereira Lamoso
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